Por que os serviços são tão ruins no Brasil e por que precisamos das start ups

Por que os serviços são tão ruins no Brasil e por que precisamos das start upsCC by Thoth, God of Knowledge.

Sempre fui apaixonado por empreendedorismo. Por isso fiquei animado com o interesse crescente em start ups no Brasil. Mas, algo começou a me incomodar. Não conseguia entender direito a razão até pouco tempo atrás.

 

Um pouco de contexto

Viajar pelo mundo tem me ajudado a entender melhor o Brasil, não apenas o resto do mundo. Tenho aprendido muito sobre o meu país de origem ficando afastado dele. Um paradoxo interessante, que talvez possa ser explicado pelos novos pontos de vista que a gente ganha quando está viajando no exterior.

Uma importante lição sobre o mundo: não há um país perfeito. Há problemas seríssimos onde quer que se vá. Mas, também é verdade que em alguns países vive-se melhor que em outros.

Não acho que o Brasil esteja em uma posição assim tão ruim. Não é uma maravilha. Mas, provavelmente é melhor do que imaginamos. Seja como for, há muito espaço para melhoria, especialmente no que diz respeito a bens e serviços.

Bens e serviços brasileiros

Fico profundamente triste em escrever isso, mas acho que os produtos e serviços brasileiros estão entre os piores do mundo, embora também estejam, curiosamente, entre os mais caros. Permita-me ser bem específico a esse respeito. Não estou comparando o Brasil apenas aos países ricos. Estou me referindo aos mais de quarenta países que visitei, que vão desde pobres a países extremamente ricos. 

Nós, brasileiros, reclamamos o tempo todo da empresa de TV a cabo, da operadora de telefonia, da fornecedora de energia elétrica, do governo, do banco, das lojas, dos hospitais, das estradas, das escolas e por aí vai. São assim tão ruins? Sim, de um modo geral são mesmo. E se você passar um tempo fora do Brasil, aí então é que percebe que são realmente ruins. E além disso, são caríssimos. O que significa que, no Brasil, estamos sendo extorquidos a maior parte do tempo. Pelo menos esse é o meu sentimento quando estou no Brasil.

Essas coisas são perfeitas em outras partes do mundo? Não, longe disso. Mas, na média, diria que tendem a ser melhores e mais baratas. A gente realmente paga demais, no Brasil, por produtos que são uma porcaria e por serviços horrorosos. Mas, por que?

Algumas possíveis causas

Não sei as razões exatas, mas tenho um palpite sobre tudo isso. Talvez nós Brasileiros não percebamos completamente o quão populoso é o nosso país. São quase 200 milhões de pessoas no Brasil. Apenas quatro países são mais populosos: China, Índia, EUA e Indonésia. Temos no Brasil a metade da população da América do Sul. É um bocado de gente. 

Felizmente, temos nesse momento uma taxa de desemprego bem baixa. A média foi de 5,5% no ano passado (2012). E, na verdade, em dezembro foi de apenas 4,6%. Isso é bem baixo, especialmente para um país tão grande e tão populoso quanto o nosso. Apenas para efeito de comparação: Canadá 7,4%, EUA 7,7%, Reino Unido 7,7%, Finlândia 7,9%, Suécia 8,1%, França 10,7%, Irlanda 14,7%, Portugal 15,8%, Grécia 26% e Espanha 26%.

Se um país tem uma população tão grande e quase todo mundo está trabalhando, isso significa que existe muita demanda por bens e serviços e as pessoas podem pagar por eles. O que é uma ótima notícia.

Mas, também significa que as pessoas vão comprar bens e serviços independente de eles serem bons ou não. Quer dizer, se tem tanta demanda no mercado, então, não é necessário batalhar tanto para fazer um bom produto ou prestar um bom serviço. O basicão já dará conta do recado. E isso é exatamente o que acontece no Brasil.

Não importa tanto assim se você faz a sua parte bem ou não. Você vai acabar conseguindo vender de um jeito ou de outro. Simplesmente porque há muita necessidade e um monte de gente que pode comprar. Mas, a coisa é ainda pior.

Olhemos para a educação. Infelizmente, não importa que números analisemos. No que se refere à educação, o Brasil é uma tragédia. É simples assim.

As pessoas vão para a escola? Sim. Mas, a qualidade da educação geralmente é baixa. Logo, a maioria dos brasileiros consegue ler e escrever em teoria. Mal e porcamente. Há um pequeno grupo (comparando com o tamanho da população) que é extremamente bem instruído. Mas, a maioria das pessoas só tem uma educação bem básica mesmo. Isso é um problema gigantesco.

Se a maioria das pessoas tem uma educação ruim e quase todo mundo está trabalhando, isso significa que a maioria das pessoas que está trabalhando tem uma educação insuficiente. Então, é quase que natural que a gente receba produtos e serviços tão ruins. Porque para ter bons produtos e serviço, é necessário melhorar o nível geral de educação. E todos sabemos o quanto é imperativo melhorar a educação no Brasil. Porém, há algo além.

Como mencionei antes, há um grupo relativamente pequeno de pessoas muito bem educadas no Brasil. Um grupo que está conduzindo as empresas na figura de diretores, gerentes, donos de empresas, técnicos e por aí vai.

Como essas pessoas estão no topo da hierarquia corporativa, são essas pessoas que criam as regras dentro das organizações. Portanto, na verdade, essas são as pessoas mais importantes no que diz respeito a produzir bens e serviços de alta qualidade. Porque são as pessoas que determinam a direção das empresas.

Se eles decidem que as empresas deveriam investir mais em melhorar a qualidade dos produtos, ou investir mais no treinamento dos funcionários, então, assim será feito. Porque essas são as pessoas que têm o poder de fazer tais mudanças dentro das empresas. Essa galera é realmente importante. Se a gente quer ter melhores produtos e serviços, a gente precisa fazer essa galera adotar esse ideal e compreender que vão ganhar mais dinheiro como um resultado natural desse esforço.

O problema é que isso não vai acontecer. Essa turma a qual me refiro é um grupo extremamente bem educado de salafrários. Eles são instruídos e capacitados, mas não têm o menor padrão moral. O pessoal que está por trás das grandes empresas, no papel de diretores, gerentes e executivos de um modo geral, está ocupado demais ganhando rios de dinheiro vendendo porcaria e oferecendo serviços ruins. Tem um mar de gente comprando de um jeito ou de outro, seja o produto bom ou ruim. Então, para que fazer melhor? Tá chateado com a internet ruim, agradeça a esse grupo. Tá triste porque não consegue cancelar a TV a cabo, agradece a essa galera. Sinto muito, mas não tenho qualquer esperança de que melhorias venham dessas empresas ou dessa turma. Já estão corrompidos demais. É uma pena. 

As start ups

Todo ano sai das universidades brasileiras uma nova safra de pessoas bem instruídas. Não é muita gente, levando-se em conta o tamanho da população, mas é um grupo extremamente importante. Porque é o grupo que tem o maior potencial de melhorar as coisas, na minha opinião. Eles podem começar do zero, não precisam carregar o fardo do passado.

Infelizmente uma boa parcela desse pessoal decide fazer concurso público. E assim se perde um monte de talentos. Alguns vão ajudar a melhorar um pouquinho o governo e as empresas públicas, mas no geral é um tremendo desperdício de talentos, na minha opinião.

Outros vão trabalhar nas grandes empresas e se tornarão parte desse mundo que não dá a mínima para os clientes. Outro desperdício.

Alguns irão trabalhar em algumas das poucas empresa que são realmente legais e estão tentando fazer a diferença. E um minúsculo grupo decide empreender. Vão criar algum tipo de start up, eventualmente. Isso é ótimo.

Esse último grupo é extremamente importante. Porque tem potencial para trazer mudanças significativas ao mercado ao longo do tempo. É um grupo tão minúsculo e ao mesmo tempo com tanto potencial de melhorar a sociedade, que é crucial que eles escolham o caminho de forma bem cuidadosa.

Na minha visão, e posso estar completamente enganado, o movimento brasileiro de criação de start ups, se assim podemos chamá-lo, frequentemente tenta seguir os passos dos EUA. 

Dessa forma, existe todo um foco em tentar criar um conceito novo, testá-lo, ir para a rua, tentar achar um mercado, buscar investimento e assim por diante. Em outras palavras, há um foco bem grande na tentativa de criar novas ideias, novos conceitos. Afinal, inovação é o que importa, certo?

Bem, talvez não. É bem maneiro quando algo do tipo Airbnb ou Dropbox é criado. Mas, sejamos realistas, também é bastante raro. E é difícil inovar e transformar uma inovação em um grande negócio. Então, diria que talvez estejamos colocando atenção demais nessa coisa de inovar, quando em lugares como o Brasil, isso está longe de ser o problema mais crítico.

No Brasil as empresas, com raras e louváveis exceções, geralmente não fazem sequer o básico bem feito. Elas estão fazendo muita coisa errada o tempo todo, estejam elas produzindo bens ou prestando serviços. Então, o que precisamos, desesperadamente, é ter mais empresas que sejam capazes de pelo menos fazer o básico de forma adequada.

Estou me referindo aos tipos de empresas mais tradicionais que existem, como restaurantes, farmácias, supermercados, padarias, lojas de sapato, academias e por aí vai. Todos os setores da nossa economia ganhariam muito se houvesse mais dessas empresas tradicionais que simplesmente fizessem o básico direito. 

Por exemplo, em Niterói, onde morava antes, há inúmeros restaurantes. Se você me perguntar quantos bons restaurantes existem por lá, vou te responder: apenas dois. E quantos cafés são bons? Um! E em muitos setores não vou ser capaz de dar sequer um exemplo de empresa que seja boa. Temos várias empresas que são abaixo do que consideraria ok. Mas, pouquíssimas boas, seja do que for. E nem vou entrar no mérito das excelentes.

Acho bem legal ver start ups bolando novas ideias. Mas, na boa, tem um monte de tipos de negócios que são muito bem conhecidos e terrivelmente mal conduzidos no Brasil. Se alguém decidir criar uma empresa que faça o seu trabalho direito, em qualquer desses setores mais tradicionais, garanto que duas coisas vão acontecer: vai ganhar um bom dinheiro e vai ajudar a tornar o Brasil um lugar melhor. Precisamos desesperadamente de negócios “tradicionais”, bem conhecidos, sendo bem conduzidos.

A boa notícia é que, como esses tipos de negócios já existem há muito tempo, não é preciso inventar muita coisa. E, para ficar ainda melhor, sempre é possível pegar um avião e visitar uma parte do mundo que tenha excelentes exemplares do que você quer fazer.

Quer abrir um café? Dá um pulo em Buenos Aires e sai visitando um monte deles. Com certeza vai ter boas ideias de como criar um excelente café. Quer aprender como prestar o melhor serviço do mundo? Vai passar um tempinho no Japão. E por aí vai.

Inovação é maneiríssimo. Mas, nós, brasileiros, também precisamos desesperadamente de empresas em áreas tradicionais que realmente se importem com o cliente. A gente é capaz de fazer melhor. E se fizermos isso, o dinheiro vai vir naturalmente. Pode acreditar.

 

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