Até que ponto liberdade é importante para desenvolvedores de software?

Até que ponto liberdade é importante para desenvolvedores de software?

Foto de John Drake (CC).

Tive essa conversa diversas vezes nos últimos dias:

- E aí, quanto tempo vocês vão ficar em Istambul?

- Dois meses.

- Uau, dois meses! Mas, por que? O que você está fazendo? Trabalhando ou algo assim?

- Na verdade é meio complicado. A gente não tem casa em nenhum lugar do mundo. A gente fica viajando por aí. No momento decidimos passar dois meses em Istambul. Na maior parte do tempo a gente fica no apartamento, trabalhando remotamente para nossos negócios no Brasil.

- Que maneiro! Mas, o que você faz?

- Sou desenvolvedor de software. Só preciso do meu notebook e de acesso à internet. Então, não faz diferença o lugar em que estou no mundo.

- Uau, que privilégio! Que inveja de você. Sua profissão é maneiríssima, porque você pode trabalhar de qualquer lugar do planeta. Isso é fantástico. E para onde vão depois daqui?

- Não sei. Não decidimos ainda.

Tenho um sentimento esquisito toda vez que tenho essa conversa. É bom ser lembrado do privilégio que tenho como desenvolvedor de software, de poder trabalhar de qualquer lugar do mundo. Mas, não é bom ser lembrado de que tantos outros têm o mesmo privilégio que eu, mas o desperdiçam de alguma forma.

Existem muitos desenvolvedores de software por aí. Apenas alguns compreendem esse privilégio e o aproveitam. Por que? Preste atenção nas duas histórias abaixo:

Renato, o convencional

Vou descrever um cenário que acontece com frequência no Brasil, porque é o que conheço melhor, mas suponho que não seja muito diferente do que acontece em outras partes do mundo.

Renato acabou de passar para uma universidade pública. Portanto, não terá de pagar por sua educação e vai passar os próximos quatro anos no curso de ciência da computação.

No final do primeiro ano as ofertas de estágio começam a aparecer. Logo ele começa a trabalhar meio período em alguma empresa e ganha até muito bem para um estudante. Não demora para ter uma ideia brilhante: comprar um carro. Ele guarda o suficiente para pagar a entrada e compra o que pode até não ser uma Ferrari, mas é um carango respeitável.

Acaba a universidade e Renato é contratado em uma das muitas empresas que precisam desesperadamente de um desenvolvedor de software. Ele ainda está no começo de sua carreira, mas agora tem um salário bem decente para quem está no primeiro degrau da escada corporativa. Uma ideia inevitável lhe ocorre: deveria comprar a minha casa própria. Afinal, o que é mais importante do que ter uma casa própria?

Ele guarda o suficiente para a entrada e compra uma casa, que não combina muito com seu carro velho. Então ele troca o carro por um zero km, usando o antigo para pagar a entrada. Agora ele tem duas dívidas que irão corroer a maior parte do salário por muitos anos. Mas tudo bem, porque seu salário logo vai aumentar. 

Ele vai trabalhar para deixar de ser um programador, porque afinal, programar é uma atividade para iniciantes, assim ele pensa. Ele quer se transformar em líder técnico, arquiteto de software, analista de negócios ou em um gerente.

As coisas melhoraram, não só por conta da casa nova e do carro zero, mas também porque ele conheceu a mulher de sua vida. Eles namoram por um tempo e decidem se casar. Claro que tem que haver uma festa de casamento. O que significa um bocado de despesas adiante.

Agora Renato está casado. Ele paga as mensalidades do carro, da casa e mais as parcelas de vários itens do casamento que ainda não foram completamente quitados. Assim que ele e sua esposa voltam da lua-de-mel, a família comemora lhes enchendo o saco com um assunto bem específico, que é líquido e certo: quando é que o bebê vai chegar? Um casal precisa de um bebê com certeza. Pelo menos um para começar.

Eles estão casados há alguns anos e o bebê está para nascer. Sem problemas, porque a essa altura Renato já não é mais um programador. Ele está ganhando mais em um cargo gerencial. Ele envia emails, elabora planilhas e prepara relatórios como ninguém. De fato, uma excelente aplicação do tempo que passou na universidade.

Renato ainda tem alguns anos pela frente para chegar aos trinta. E a essa altura ele é tudo, menos livre. É um cara brilhante, bem educado, que ganha uma bela grana, mas que é incapaz de mudar a sua vida em qualquer sentido que deseje, porque tem responsabilidades e compromissos em excesso, cedo demais.

Silvio, o maluco

Agora vejamos o caso de Silvio, um dos colegas de turma de Renato. Assim como Renato, Silvio morava com a família quando entrou no curso de Ciência da Computação.

Na primeira semana da universidade Silvio, Renato e outros colegas estão almoçando quando escutam falar do Couch Surfing pela primeira vez. Renato não dá muita trela, mas Silvio decide dar uma olhada. Ele descobre, entre outras coisas, que diversas pessoas hospedam estrangeiros em casa com o objetivo de aprimorar o inglês. De fato, ele mesmo precisa melhora seu inglês, então pergunta aos pais se pode usar o sofá de casa para hospedar estrangeiros. Felizmente os pais dão sinal verde.

Alguns dias depois Silvio recebe seu primeiro visitante de Toronto, Canadá. Aí ele percebe o quanto seu inglês é ruim. Mas, dá tudo certo. Depois de alguns dias ele ganha um pouco mais de moral e se sente mais confiante para conversar em inglês com o canadense. Ele tem a sensação de ter aprendido muito mais assim do que nos seis anos que passou no cursinho de inglês.

A vida segue e ele hospeda mais um monte de estrangeiros, sempre tentando equilibrar o tempo que passa com seus visitantes e o tempo que precisa para estudar para a faculdade. Isso é tão desafiador que ele teve que aprender rapidamente a manter o foco e a priorizar. E como seu inglês rapidamente melhorou muito, ele conseguiu encontrar um estágio até antes do Renato. Seis meses antes, para ser mais exato.

No fim do primeiro ano, Silvio já tinha hospedado dezenas de pessoas. Quase todas o convidaram para uma visita em retribuição. Silvio ganha bem no estágio, mas guarda a maior parte da grana. Como mora com os pais, acha que não precisa torrar a grana de bobeira, até porque é sempre uma boa ter um dinheiro guardado para os momentos de aperto.

Jorge é um hóspede Argentino que se tornou muito amigo de Silvio. Ele insiste em que o Silvio vá visitá-lo durante as primeiras férias da universidade. A passagem aérea não é tão cara assim. Então, Silvio percebe que pode comprá-la sem ter que tirar muito de sua reserva financeira. E como ele vai ficar na casa de Jorge, de graça, decide ir.

Ele se apaixona pela Argentina e começa a aprender Espanhol com Jorge e seus amigos. Um deles também é desenvolvedor de software e está envolvido em um projeto de software livre bem legal. Silvio ainda não sabe programar tão bem assim, mas é convidado para o projeto e se empolga bastante com ele.

De volta à casa, Silvio continua estudando, trabalhando e hospedando viajantes do mundo todo. Mas, agora ele tem um estágio melhor graças as novas habilidades que adquiriu enquanto trabalhava no projeto de software livre e ao seu inglês fluente e espanhol iniciante. Ele ganha ainda mais, porém continua guardando a maior parte do que recebe. Ele não tem um carro, mas também não tem nenhuma dívida.

Quando termina a universidade, Silvio já viajou para mais de trinta países diferentes. Na maior parte do tempo visitando pessoas que ele hospedou no passado. Ele tem inúmeros amigos no mundo todo. Não só por conta do Couch Surfing, mas também em função do trabalho que andou fazendo em alguns projetos de software livre.

Exatamente por conta desses trabalhos, ele agora recebe ofertas de emprego de inúmeras empresas e algumas pagam muito bem. Ele escolhe uma e cai dentro. É meio longe de casa e vai ser um belo gasto de tempo no transporte, mas o trabalho parece bem legal.

Alguns meses depois, ele já está de saco cheio do longo percurso e do tempo que passa no transporte. Além disso, acha que já está mais do que na hora de sair da casa dos pais. Então, aluga um pequeno apartamento perto do trabalho. 

Ele tem um salário muito bom e já tem uma reserva financeira substancial para alguém com apenas dezenove anos. O que é até curioso se você pensar que ele já viajou para tantos países. Mas, sempre de forma bem barata, graças aos muitos amigos.

Ele aluga o pequeno apartamento e se assegura de ter ali um bom sofá para hospedar os viajantes. Já que são apenas cinco minutos do trabalho, não é preciso ter um carro. Às vezes ele até gosta de viajar de carro para lugares próximos. Nestas ocasiões ele aluga um carro apenas para o período da viagem, já que é muito mais barato do que ter um carro o tempo todo.

Dois anos depois ele recebe essa incrível proposta de trabalho. Mas, infelizmente é em um lugar bem distante, do outro lado da cidade. Depois de pensar um pouco, percebe que pode simplesmente se mudar para outro apartamento, mais perto do novo emprego. Já que ele não é dono do apartamento atual, não tem nenhuma dívida, nem nenhum tipo de obrigação, tem liberdade para sair rapidamente.

Alguns anos se passam e ele continua viajando bastante e aproveitando a ajuda e a hospitalidade dos locais, sempre usando um pouco de suas economias e economizando ainda mais, ficando na casa de um dos muitos amigos espalhados pelo planeta. E como ele é um desenvolvedor de software, um programador que só melhora com o passar do tempo, é muito respeitado na empresa em que trabalho. Então, seu chefe é bastante flexível quando ele deseja viajar por mais tempo e pede para trabalhar remotamente.

Um dia ele está viajando na Coréia do Sul quando conhece Daniela, a mulher de sua vida. Ela é uma estilista que está passando férias na Coréia do Sul e no Japão, dois paraísos para estilistas. Inspiração por todas as partes.

Acontece que Daniela não é apenas brasileira. Ela vem exatamente da mesma cidade em que Silvio mora, mas eles nunca se encontraram lá. Que loucura é a vida, né? Eles se encontram pela primeira vez a milhares de quilômetros de casa. E logo começam a namorar, assim que retornam ao Brasil.

Pouco tempo depois decidem se casar. Mas, como os dois adoram viajar, preferem guardar dinheiro para isso. Então, tentam evitar os altos gastos de um casamento. Organizam uma festinha bacana, mas nada grande, nem muito sofisticado. O importante é que não querem ter nenhum tipo de dívida por conta do casamento.

A propósito, eles ainda não querem comprar uma casa e se endividar de nenhuma forma. Então, alugam um outro apartamento para eles, no meio do caminho entre o trabalho de cada um. Não é grande, nem rebuscado, mas é aconchegante e eles gostam de lá.

Às vezes eles viajam por períodos mais longos e ela também consegue convencer seu chefe a deixá-la trabalhar remotamente nessas situações, que depois de um tempo começaram a se tornar cada vez mais frequentes. Até chegar a um ponto em que os dois convenceram seus respectivos chefes a deixá-los trabalhar de casa.

Eles começam a trabalhar em casa e passam muito mais tempo juntos. Mas, agora já não têm mais desculpas. Quando amigos de outros países lhes convidam para uma visita, eles já não podem recusar usando o trabalho como desculpa. Todos sabem que eles podem trabalhar de onde estiverem. Pobrezinhos, quando se dão conta, estão viajando pelo mundo permanentemente, porque realmente já não importa mais onde estejam. Eles conseguem trabalhar e viver uma vida maravilhosa pulando de país em país. Decidiram inclusive não ter mais uma casa, em nenhum lugar do mundo. Ficam vagando por aí, às vezes usando o Couch Surfing, às vezes usando o Airbnb para achar acomodação com preços mais baixos.

Sete anos depois do casamento eles decidem ter um filho. Então, consideram melhor voltar para o Brasil e ficar um tempo por lá.

Agora a vida é diferente. Eles alugaram um apartamento suficientemente grande e já não viajam mais tanto assim. Especialmente nos primeiros meses do recém-nascido. Mas, não demora muito para o bebê entrar no circuito e começar a viajar com eles. Até porque, os amigos mundo afora não vêm a hora de conhecer o pequeno Lucas.

Quanto a comprar a casa, Silvio e Daniela ainda não se decidiram. Eles nem sequer sabem onde gostariam de passar o resto da vida. Mas, quando decidirem já terão reserva mais do que suficiente para comprar uma casa à vista e com um bom desconto.

Até lá, estão livres para estar onde quiserem, quando quiserem e ainda assim trabalhar em suas respectivas profissões. Legal, né?

Liberdade para escolher o que fazer com seu tempo

Dinheiro é muito óbvio. Todo mundo trabalha por ele. Mas, tempo é o que realmente importa. Porque sempre dá para ganhar mais dinheiro, mas não é possível recuperar o tempo perdido. Então, diria que uma das coisas mais importantes nesta vida é ter liberdade para usar o tempo como a gente bem entender.

Há muitas formas de alcançar essa liberdade, especialmente para quem é um desenvolvedor de software. É preciso apenas ter atenção com as decisões que vão sendo tomadas pelo caminho. Até porque, a vida é curta demais para não prestar atenção.

Então, qual vai ser sua história? Convencional? Maluco? Comece a prestar atenção.

 

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